E quando não há planos para a próxima viagem?

Eu rascunhei esse texto no primeiro confinamento, em 2020. E, quase um ano depois, a impressão é que voltei no tempo. O mesmo tempo suspenso, em que os dias passam sem muita ideia de quando tudo volta ao normal. Também faz tempo que não sabemos o que se pode chamar de “normal”, já que esses 12 meses convivendo com a pandemia mudaram qualquer parâmetro de normalidade. Considerando que já não interessa esperar o futuro como a volta ao que era conhecido até então, eu olho para trás mais uma vez.

Digo “mais uma vez” porque o que eu mais fiz nesse último ano foi viver com saudade. Passei dias melancólicos, lembrando de viagens passadas, de coisas vividas, do que tinha sido feito até aquele ponto em que eu estava trancada em casa, sem saber quando é que daria para fazer planos de colocar a mochila nas costas outra vez.

Acabou não demorando tanto, porque o verão aconteceu e vivemos o calor intensamente. Em alguns momentos, parecia até que o mundo tinha voltado a ser um lugar familiar, mas bastava chegar alguém mais perto para vir junto a avalanche de realidade – devidamente acompanhada do combo máscara e álcool em gel.

Com estes novos hábitos já incorporados, foi-se andando numa espécie de Jogo da Vida orquestrado por uma roleta meio emperrada, fazendo com que avançássemos lentamente, de casinha em casinha. E, no meio dessa movimentação, 2021 nos levou de volta ao início do tabuleiro.

O tempo em confinamento é curioso. Enquanto olhar para trás e para frente torna-se sedutor, viver o presente é um desafio. Nessa sensação de que há tempo demais e nada a fazer, o corpo detido vive no plano das ideias, lembrando do que foi e imaginando o que poderá vir.

Eu, que sempre tive dificuldade de exercitar essa coisa bonita de viver um dia de cada vez, me pego numa espécie de montanha-russa que já começa com subida a 90º. E, ao invés de curtir o frio na barriga que aquele tec-tec dá, vario entre pensar no momento em que entrei naquele maldito carrinho e a espera por uma descida que desconheço o tamanho ou onde é que ela vai dar.

Dá trabalho tentar escutar o tec-tec dessa montanha-russa com atenção, equilibrando as memórias e as projeções que me atravessam, mas venho tentando… E as viagens entram nessa conta quando eu consigo conciliar os tempos verbais com mais flexibilidade e menos expectativa, lidando com o elemento surpresa que pode aparecer no caminho. Um diazinho de cada vez.

Então, o lento momento em vincar o tempo
Penso no tempo sem pensar no tempo que verdadeiramente tenho
Porque só quem não pensa no tempo
É que pode, incessantemente, ter tempo

Janeiro – Ter tempo